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	<title>Sérgio Castanho | CCLA</title>
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	<description>Centro de Ciências, Letras e Artes</description>
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	<title>Sérgio Castanho | CCLA</title>
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		<title>Nossas letras e suas damas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alcides Acosta]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Sep 2022 22:43:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Cecília Prada]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica de Sérgio Castanho]]></category>
		<category><![CDATA[Escritoras de Campinas]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Castanho]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sérgio Castanho  -<br />
                                               Iniciarei com três palavras sobre a notável escritora campineira Maria José Morais Pupo Nogueira, nossa querida Dona Zeza, aqui nascida e aqui falecida em 2015 com 102 anos. Seu primeiro romance, “Natal Solitário”, recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio... adivinhem o nome da láurea – o Prêmio Júlia Lopes de Almeida.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="has-text-align-right"><strong><em>Sérgio Castanho</em></strong></p>



<p class="has-medium-font-size">De vez em quando volto ao tema das letras na terra que foi das andorinhas e agora é das pombas. Bairrismo? Regionalismo? Não sei. E se for, que seja.</p>



<p class="has-medium-font-size">Não falarei de Júlia Lopes de Almeida, carioca que ainda criança veio para esta cidade e aqui publicou seus primeiros escritos na “Gazeta de Campinas”. Todos os registros apontam Júlia como escritora carioca. Então desta Júlia não falarei.</p>



<p class="has-medium-font-size">Iniciarei com três palavras sobre a notável escritora campineira Maria José Morais Pupo Nogueira, nossa querida Dona Zeza, aqui nascida e aqui falecida em 2015 com 102 anos. Seu primeiro romance, “Natal Solitário”, recebeu da Academia Brasileira de Letras o Prêmio&#8230; adivinhem o nome da láurea – o Prêmio Júlia Lopes de Almeida. Seu segundo romance, “Céu Escuro”, foi premiado pela Academia Paulista de Letras e pela Secretaria de Cultura do então Estado da Guanabara. Outras obras literárias suas: “Ana” e “O Órfão e a Mulata”. Maria José ocupou a cadeira 33 da Academia Campinense de Letras e foi diretora do Departamento de Cultura e do saudoso Teatro Municipal de Campinas. Casou-se nesta cidade com Stênio Pupo Nogueira, um amigo com quem tive a felicidade de conviver, apesar da diferença de idade, no Centro de Ciências e em outros ambientes culturais. Intelectual de primeira água, Stênio foi professor da PUC-Campinas nos tempos de Monsenhor Salim. Era irmão do combativo jornalista Bráulio Mendes Nogueira e do músico Paulinho Nogueira. Dona Zeza e seu Stênio tiveram três filhos: Spencer, arquiteto, professor da PUC e artista plástico, autor da escultura em homenagem ao ex-prefeito Toninho; Clirian e Maria José, a Zezinha. Tudo – a escritora, seu marido, seus filhos, seus cunhados –tudo gente nossa, tudo gente de brilho.</p>



<p class="has-medium-font-size">Agora falarei de uma escritora que não nasceu aqui, não é parente de Campos Sales nem de Joaquim Egídio de Sousa Aranha (o marquês campineiro que presidiu São Paulo), mas aqui se radicou e aqui tem vivido nos últimos quinze anos. É a grande escritora Cecília Prado, creio que posso dizer campineira por usucapião municipal. Campinas usucapiu Cecília, que ocupa uma cadeira da Academia Campinense de Letras e ainda é titular da ACLA e do IHGGC.</p>



<p class="has-medium-font-size">A última obra que li de Cecília Prada foi a coletânea de contos “Nós, que nem ao menos somos deuses” (Pontes, 2020). O livro abre com seu “La Pietà”, considerado um dos mais belos contos em língua portuguesa. Foi escolhido em 1994 para abrir a feira internacional de livros de Frankfurt, Alemanha, onde havia sido publicado em 1986 na antologia “<em>Frauen in Lateinamerika</em>” (Mulheres na América Latina), com a versão para a língua de Goethe por Curt Meyer-Clason, o mesmo tradutor de Guimarães Rosa e de Garcia Marques.</p>



<p class="has-medium-font-size">Não preciso dizer de Cecília o que dela já disseram Lygia Fagundes Telles, Hernâni Donato, Leonardo Arroio, Alberto da Costa e Silva e muitos outros ícones de nossa cultura. Também não preciso esquadrinhar seus vinte livros publicados no Brasil. Nem os que saíram no exterior. Ficam igualmente sem dizer as quarenta obras literárias, artísticas e humanísticas que traduziu do inglês, do francês, do italiano e do espanhol. Peças de teatro de sua autoria foram traduzidas mundo afora. Uma das peças foi encenada em Nova Iorque. Tudo isso são coisas de uma grande dama de nossas letras.</p>



<p class="has-medium-font-size">Deveria falar ainda de Cida Sepúlveda, essa notável poeta e contista (“Coração Marginal”), que nasceu em Piracicaba (São Pedro) e viveu e escreveu em Campinas. Fica para outra.</p>



<p class="has-medium-font-size">E os varões assinalados destas campinas das letras? Outro dia voltarei a falar de Luiz Carlos R. Borges, amigo fraterno, campineiro de Guaraci que ambienta seus romances e contos no Café do Povo, na rua Barão, no largo do Rosário, a menos que esteja na Aquitânia escrevendo sobre Leonor, sua corte, seus trovadores. Cantando espalharei, à moda de Camões, a fama justa de Eustáquio Gomes, campineiro de Montes Altos (Minas), que nos deixou rumo ao assento etéreo onde não mais arderá com sua febre amorosa. Direi palavras enrouquecidas sobre Joaquim Brasil Fontes, campineiro de Minas e de Paris. Gostaria de falar do Zaiman de Brito Franco, amigão desde os tempos da Gruta do Noel Rosa, campineiro de Macaé (Rio), o escritor da baixa sociedade. Eu gostaria, mas ele não gosta disso, se esquiva quando sugiro que reúna em livro tudo quanto escreveu no jornal sobre a sociedade do Bar do Meio e do Mercadão. Que fazer? &nbsp;Como meu espaço chegou ao fim, falarei só na próxima crônica de um varão de nossas letras, Roberto Goto, que vem de publicar “hera fechada” (assim mesmo, com minúsculas), sua novela-cabeça que se junta às vinte e tantas obras de múltipla literatura que já escreveu. E atenção, revisão! É“hera” mesmo, com he, não “hora”, com ho. Hora, agora, é só de parar. Pronto, parei.</p>



<p>Sérgio Castanho é pesquisador e professor de História da Educação na Unicamp e titular do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e da Academia Campinense de Letras (ACL)</p><p>The post <a href="https://ccla.org.br/2022/09/nossas-letras-e-suas-damas/">Nossas letras e suas damas</a> first appeared on <a href="https://ccla.org.br">CCLA</a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>A Casa de César aos cento e vinte anos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alcides Acosta]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 Oct 2021 20:18:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CCLA na Mídia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[César Bierrenbach]]></category>
		<category><![CDATA[História do CCLA]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Castanho]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sérgio Castanho Não, não vou falar aqui do palácio em que vivia o imperador romano...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p class="has-text-align-right"><strong><em>Sérgio Castanho</em><br></strong></p>



<p class="has-text-align-left">Não, não vou falar aqui do palácio em que vivia o imperador romano Júlio César. Quando me refiro à “casa de César”, é de César Bierrenbach que estou falando e sua casa não é o palácio bimilenar do imperador de todas as Gálias, mas o Centro de Ciências, Letras e Artes, a “Casa de César”, que esse ilustre campineiro fundou ao lado de outros expoentes da cultura de Campinas há cento e vinte anos, que se completam neste domingo 31 de outubro.<br>Pois foi a 31 de outubro de 1901, mal inaugurada a vigésima centúria de nossa época, que se fundava em Campinas o Centro, que no projeto inicial seria “de Ciências”, para apoiar aqui o avanço das ciências naturais. Cabe lembrar que décadas antes se criara na cidade um colégio cujo nome não deixava dúvida quanto à orientação cientificista de seus idealizadores: “Culto à Ciência”. Acresce a isso o fato de sediar Campinas o maior núcleo de pesquisa científica do país, o Instituto Agronômico. Mas o escopo da nova entidade transbordou do culto às ciências da natureza para banhar toda a área das ciências do espírito. Por sugestão do escritor Coelho Neto, membro da Academia Brasileira de Letras, na ocasião radicado nesta cidade por aqui lecionar no Culto à Ciência, então tornado estadual com o nome de Ginásio de Campinas, o novo Centro se dedicaria também às letras e às artes. Surgia assim o Centro de Ciências, Letras e Artes. &nbsp;<br>A primeira presidência da entidade, a cargo de Leôncio de Carvalho, seria logo assumida pelo vice, o intelectual, escritor e cientista José de Campos Novais. Da diretoria fariam parte o notável tribuno César Bierrenbach e o celebrado escritor Coelho Neto. Numa época em que as comunicações eram difíceis, a diretoria do Centro, antenada com o mundo, decidia enviar, no mesmo dia de sua fundação, e por sugestão de Coelho Neto, mensagem de congratulação a Santos Dumont, por ter sobrevoado Paris e contornado a Torre Eiffel apenas doze dias antes. No ano seguinte já se discutia no Centro a obra de Victor Hugo; palestrava-se sobre Graça Aranha, grande incentivador mais tarde da Semana de Arte Moderna de 22, e seu <em>Canaã</em>; Coelho Neto apresentava <em>Os Sertões</em>, de Euclides da Cunha, mal saído da prensa em 1902; o próprio Euclides viria a Campinas em seguida e manteria contato com Campos Novais, além de entabular rica correspondência com Coelho Neto; numa das sessões, a abertura da ópera <em>Lohengrin</em>, de Wagner, foi executada por orquestra regida por Santana Gomes. Campinas vivia, como dizem hoje os madrilenhos de sua agitada vida intelectual, <em>una movida cultural</em>, acelerada pelo Centro.<br>Um dos mais expressivos frutos do CCLA foi sua <strong><em>Revista</em></strong>. O primeiro número saiu já em 1902. Dirigiram-na e nela colaboraram grandes vultos das ciências, das letras e das artes do país, Campos Novais, Coelho Neto, Alberto Faria – a lista completa exigiria uma nova crônica. Em 1976 este cronista dirigiu-a e editou o número comemorativo dos 75 anos do Centro.<br>Quando comecei a frequentar o Centro de Ciências, por volta de 1975, presidia-o Herculano Gouveia Neto, vereador, ministro protestante, não me lembro que mais. Uma curiosidade: havia no térreo da imponente sede da rua Bernardino de Campos uma sala com um equipamento de som e mais de uma cabine individual em que o ouvinte podia escutar a música que escolhesse com fones de ouvido. Foi ali que ouvi pela primeira vez o <em>Boléro </em>(me ensinaram que era para pronunciar “bolerrô”), de Ravel; e foi ali que o amigo Alexandre, o mais tarde celebrado linguista e musicólogo José Alexandre dos Santos Ribeiro, explicou-me que o andamento arrastado e repetitivo da peça reproduzia o arrastar-se de uma caravana no deserto.<br>A biblioteca do Centro, por longo tempo dirigida por Maria Luísa Pinto de Moura, tem o nome de César Bierrenbach e abriga um verdadeiro tesouro bibliográfico. A pinacoteca não fica atrás e ostenta obras notáveis de Lasar Segall, Pedro Alexandrino, Nicotta Ferraz&#8230; Os museus de Campos Sales e de Carlos Gomes guardam preciosidades do presidente e do operista.<br>Ao completar 101 anos, em 2002, o Centro ganhou um livro, <em>CCLA 101</em>, sendo autores o escritor Luiz Carlos Ribeiro Borges e o jornalista Gustavo Osmar Mazzola, tendo como presidente Marino Ziggiatti. A galeria de ex-presidentes tem muitos nomes ilustres, que não me atreveria a arrolar, mas dos quais pelo menos me lembrar posso de Álvaro Cotomacci, meu professor de inglês no curso ginasial, de Rodolpho Bueno, engenheiro calculista, de Dayz Peixoto Fonseca, minha colega de faculdade, e por aqui paro.<br>Hoje o Centro de Ciências, Letras e Artes é presidido pelo tenor Alcides Ladislau Acosta, talentoso e operoso líder cultural da mesma têmpera dos Marinos, tendo como vice Clarissa Mendes Nogueira e como secretário geral o escritor Luiz Carlos Ribeiro Borges. Na próxima quinta-feira 28 haverá às 17 horas a comemoração dos 120 anos na sede do CCLA. Nesse dia, que antecipa o 31 de outubro, irei dar um abraço ao Alcides, apagar uma das cento e vinte velinhas do Centro, assistir à exposição das telas de Fúlvia Gonçalves que estarão ao lado das reproduções de poemas de Mallarmé, traduzidos pelo saudoso amigo e escritor ímpar Joaquim Fontes. Saudade dos rapazes do Centro. Saudade de cada canto onde mora uma saudade, como cantou e chorou Coelho Neto. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><strong>Sérgio Castanho</strong>&nbsp;é pesquisador e professor de História da Educação na UNICAMP e titular do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e da Academia Campinense de Letras (ACL).</p>
</blockquote>



<p></p><p>The post <a href="https://ccla.org.br/2021/10/a-casa-de-cesar-aos-cento-e-vinte-anos/">A Casa de César aos cento e vinte anos</a> first appeared on <a href="https://ccla.org.br">CCLA</a>.</p>]]></content:encoded>
					
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		<title>Os rapazes do Centro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Alcides Acosta]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 Jan 2021 13:30:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CCLA na Mídia]]></category>
		<category><![CDATA[Artigo]]></category>
		<category><![CDATA[Correio Popular]]></category>
		<category><![CDATA[História do CCLA]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Castanho]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sérgio Eduardo Montes Castanho Outro dia o amigo e confrade Jorge Alves de Lima cobrou-me...</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<ul class="wp-block-list">
<li>Publicado no jornal Correio Popular, em 26/01/2021, Caderno C, pág. A14</li>
</ul>



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<p></p>



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</div>



<div class="wp-block-group is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p><em>Sérgio Eduardo Montes Castanho</em></p>
</div>



<p></p>
</div></div>



<p>Outro dia o amigo e confrade Jorge Alves de Lima cobrou-me incisivamente: “Sérgio, você precisa com urgência escrever sobre aquela nossa turma que se reunia no Centro de Ciências”. Eu: “É pra já, Jorginho!”<br>E aqui estou a falar de um elenco heterogêneo de rapazes que se reuniam ocasionalmente no Centro de Ciências, Letras e Artes, na segunda metade da década de 1950. Parodiei neste título o amigo, escritor, jornalista Eustáquio Gomes, que em 1992 publicou seu saboroso “Os rapazes d’A Onda e outros rapazes”, sobre um grupo mais antigo, que literalmente fazia onda em Campinas entre 1921 e 1925 e literariamente editava A Onda faz um século.<br>Além do Jorge e deste escriba, quem mais ali se encontrava? Certamente serei traído pela memória, que o prolongado uso transformou numa vaga lembrança. Mas vá lá. Em primeiro lugar falo de Paulinho Del Grecco, magro, elegante em seu terno de casimira inglesa pied-de-poule, gravata italiana, sapato mocassim preto de pelica, meias pretas altas e caneladas, uma figura! Falando com energia, gastava sem parcimônia sua erudição literária e artística em geral, acumulada nos poucos vinte e seis, no máximo vinte e oito anos que tinha na ocasião. Do Del Grecco direi mais depois. Agora apenas lembro que foi ele a me fornecer, a mim mal saído das fraldas, com dez anos a menos que ele, uma lista completa da literatura que deveria ler, com Charles Morgan, Aldous Huxley, Gabriela Mistral, Hoelderlin, Eliot, Lawrence, Rilke – e por aí em fora. Seu nome: Paulo Marcos Nogueira Del Grecco. Ele acrescentava, entre Nogueira e Del Grecco, o nome Bentivoglio, alardeando ser descendente de um certo Marquês de Bentivoglio. Sempre chegava tendo ao lado a figura esguia, de moço bonito, um pouco esquivo, delicado na fala, Antônio Sodini, para nós o Toninho. Excelente pianista, também na faixa etária do Paulinho, Toninho nos deleitava com peças de Debussy que teclava, em audições exclusivas, no piano do Centro de Ciências.&nbsp;<br>Estava sempre entre nós o José Alexandre dos Santos Ribeiro, um metro e noventa, avantajado na altura e no peso. Há pouco nos deixou. Por lá costumava estar a Maria Luísa Pinto de Moura, pessoa culta, afável, sempre disponível para orientar estudantes, era bibliotecária do Centro. Pois o Alexandre acabou casando com ela. Outra cuja presença se impunha era a dona Norma, secretária do Centro, Norma Piason. O presidente, antes da era do dedicado Marino Ziggiati e do atual Alcides Acosta, foi Herculano Gouvêa Neto, vereador, homem severo. Seu irmão mais novo, Clóvis Gouvêa, dado a filosofias, amiúde juntava-se aos rapazes.<br>Inesquecível também, e bastante frequente na turma dos rapazes, era o Chiquinho Abreu – Francisco de Campos Abreu Júnior. Advogado, poliglota, heraldista, conhecia em minúcias a vida da velha Campinas. Certa altura o Chiquinho prestou concurso, com sua rara bagagem passou e foi nomeado para a administração federal. Consta que um dia chegou ao palácio um holandês para falar com o general presidente. O visitante não sabia português e o presidente não sabia holandês. Foi um deus-nos-acuda palaciano. Quem salvou a pátria foi o Chiquinho, que fazia parte da assessoria direta do presidente e era fluente em holandês e outras dez línguas.<br>Às vezes saíamos o grupo todo a caminhar pelas ruas de Campinas. O Chico pontificava. “Estão vendo aquela casa? Ali o regente Feijó&#8230;”. “No florão daquela outra está o ano em que foi edificada, 1874; nela morava o barão&#8230;”. Nessas perambulações juntava-se a nós o comendador Theodoro de Souza Campos Junior, o Teodorinho, varapau com quase dois metros apesar do diminutivo, historiador e genealogista, fez parte da primeira e seleta turma que o professor Sampaio escolheu para a nossa campinense academia literária. Quando o Chico Abreu lançava uma farpa – “O Barão de Itapura andou&#8230;” – logo o Teodorinho, com sua voz fina e pausada de campineiro antigo, trocando quase de propósito os eles pelos erres, atalhava: “O senhor é muito mardoso, seu Francisquinho. O Barão de Itapura era um santo homem!”. Como diria o poeta, meninos eu vi.<br>Outro talento dessa rapaziada era o Heládio Brito, que a sampaial figura também levou para o primórdio da academia. Casado, Heládio fez vida como empresário, sem contudo abandonar as musas que sempre o acompanharam. Ao tempo em que se juntava aos rapazes do Centro, Heládio já poetava e já filosofava. Foi de sua boca que ouvi pela primeira vez o nome de Heidegger. Curioso o diálogo que se seguiu entre Brito e Del Grecco. “Heidegger conseguiu entrar na morada do ser e desvendar todos os seus mistérios”, disse Heládio. “Onde nasceu e onde morava o filósofo?”, perguntou, já sabendo a resposta, o empertigado Paulinho. “Na Alemanha, ora”, falou Brito. “Só podia ser, né? Dá pra ver o Heidegger nascido e morando em Caixa Prego?”, finalizava Del Grecco.<br>Havia outros, alguns fugazes como o cometa, alguns nem tanto. De repente me lembro do Mário Braga, circunspecto, sempre de terno, poucas falas, escritos vários. Virou magistrado, disse o direito com dignidade e competência. Já se foi. Também levado pela última das Parcas foi Stenio Pupo Nogueira. Raríssimas vezes ia ao Centro. Filósofo, economista, escritor, professor universitário recrutado por monsenhor Salim, foi também da sampaial academia. Os rapazes do Centro respeitavam e admiravam seu Stenio. Só de passagem: eram seus irmãos o combativo jornalista Bráulio Mendes Nogueira e o músico Paulinho Nogueira. E foi sua esposa Maria José Moraes Pupo Nogueira, autora do premiado Natal Solitário.<br>Era assim nesses tempos dos rapazes do Centro. Eles e suas artes. Do Paulinho Del Grecco falarei na próxima crônica, que ele merece uma especial.</p>
</div>
</div>



<p></p>
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