A Casa de César aos cento e vinte anos

Sérgio Castanho

Não, não vou falar aqui do palácio em que vivia o imperador romano Júlio César. Quando me refiro à “casa de César”, é de César Bierrenbach que estou falando e sua casa não é o palácio bimilenar do imperador de todas as Gálias, mas o Centro de Ciências, Letras e Artes, a “Casa de César”, que esse ilustre campineiro fundou ao lado de outros expoentes da cultura de Campinas há cento e vinte anos, que se completam neste domingo 31 de outubro.
Pois foi a 31 de outubro de 1901, mal inaugurada a vigésima centúria de nossa época, que se fundava em Campinas o Centro, que no projeto inicial seria “de Ciências”, para apoiar aqui o avanço das ciências naturais. Cabe lembrar que décadas antes se criara na cidade um colégio cujo nome não deixava dúvida quanto à orientação cientificista de seus idealizadores: “Culto à Ciência”. Acresce a isso o fato de sediar Campinas o maior núcleo de pesquisa científica do país, o Instituto Agronômico. Mas o escopo da nova entidade transbordou do culto às ciências da natureza para banhar toda a área das ciências do espírito. Por sugestão do escritor Coelho Neto, membro da Academia Brasileira de Letras, na ocasião radicado nesta cidade por aqui lecionar no Culto à Ciência, então tornado estadual com o nome de Ginásio de Campinas, o novo Centro se dedicaria também às letras e às artes. Surgia assim o Centro de Ciências, Letras e Artes.  
A primeira presidência da entidade, a cargo de Leôncio de Carvalho, seria logo assumida pelo vice, o intelectual, escritor e cientista José de Campos Novais. Da diretoria fariam parte o notável tribuno César Bierrenbach e o celebrado escritor Coelho Neto. Numa época em que as comunicações eram difíceis, a diretoria do Centro, antenada com o mundo, decidia enviar, no mesmo dia de sua fundação, e por sugestão de Coelho Neto, mensagem de congratulação a Santos Dumont, por ter sobrevoado Paris e contornado a Torre Eiffel apenas doze dias antes. No ano seguinte já se discutia no Centro a obra de Victor Hugo; palestrava-se sobre Graça Aranha, grande incentivador mais tarde da Semana de Arte Moderna de 22, e seu Canaã; Coelho Neto apresentava Os Sertões, de Euclides da Cunha, mal saído da prensa em 1902; o próprio Euclides viria a Campinas em seguida e manteria contato com Campos Novais, além de entabular rica correspondência com Coelho Neto; numa das sessões, a abertura da ópera Lohengrin, de Wagner, foi executada por orquestra regida por Santana Gomes. Campinas vivia, como dizem hoje os madrilenhos de sua agitada vida intelectual, una movida cultural, acelerada pelo Centro.
Um dos mais expressivos frutos do CCLA foi sua Revista. O primeiro número saiu já em 1902. Dirigiram-na e nela colaboraram grandes vultos das ciências, das letras e das artes do país, Campos Novais, Coelho Neto, Alberto Faria – a lista completa exigiria uma nova crônica. Em 1976 este cronista dirigiu-a e editou o número comemorativo dos 75 anos do Centro.
Quando comecei a frequentar o Centro de Ciências, por volta de 1975, presidia-o Herculano Gouveia Neto, vereador, ministro protestante, não me lembro que mais. Uma curiosidade: havia no térreo da imponente sede da rua Bernardino de Campos uma sala com um equipamento de som e mais de uma cabine individual em que o ouvinte podia escutar a música que escolhesse com fones de ouvido. Foi ali que ouvi pela primeira vez o Boléro (me ensinaram que era para pronunciar “bolerrô”), de Ravel; e foi ali que o amigo Alexandre, o mais tarde celebrado linguista e musicólogo José Alexandre dos Santos Ribeiro, explicou-me que o andamento arrastado e repetitivo da peça reproduzia o arrastar-se de uma caravana no deserto.
A biblioteca do Centro, por longo tempo dirigida por Maria Luísa Pinto de Moura, tem o nome de César Bierrenbach e abriga um verdadeiro tesouro bibliográfico. A pinacoteca não fica atrás e ostenta obras notáveis de Lasar Segall, Pedro Alexandrino, Nicotta Ferraz… Os museus de Campos Sales e de Carlos Gomes guardam preciosidades do presidente e do operista.
Ao completar 101 anos, em 2002, o Centro ganhou um livro, CCLA 101, sendo autores o escritor Luiz Carlos Ribeiro Borges e o jornalista Gustavo Osmar Mazzola, tendo como presidente Marino Ziggiatti. A galeria de ex-presidentes tem muitos nomes ilustres, que não me atreveria a arrolar, mas dos quais pelo menos me lembrar posso de Álvaro Cotomacci, meu professor de inglês no curso ginasial, de Rodolpho Bueno, engenheiro calculista, de Dayz Peixoto Fonseca, minha colega de faculdade, e por aqui paro.
Hoje o Centro de Ciências, Letras e Artes é presidido pelo tenor Alcides Ladislau Acosta, talentoso e operoso líder cultural da mesma têmpera dos Marinos, tendo como vice Clarissa Mendes Nogueira e como secretário geral o escritor Luiz Carlos Ribeiro Borges. Na próxima quinta-feira 28 haverá às 17 horas a comemoração dos 120 anos na sede do CCLA. Nesse dia, que antecipa o 31 de outubro, irei dar um abraço ao Alcides, apagar uma das cento e vinte velinhas do Centro, assistir à exposição das telas de Fúlvia Gonçalves que estarão ao lado das reproduções de poemas de Mallarmé, traduzidos pelo saudoso amigo e escritor ímpar Joaquim Fontes. Saudade dos rapazes do Centro. Saudade de cada canto onde mora uma saudade, como cantou e chorou Coelho Neto.

Sérgio Castanho é pesquisador e professor de História da Educação na UNICAMP e titular do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas e da Academia Campinense de Letras (ACL).

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