Os rapazes do Centro

  • Publicado no jornal Correio Popular, em 26/01/2021, Caderno C, pág. A14

Sérgio Eduardo Montes Castanho

Outro dia o amigo e confrade Jorge Alves de Lima cobrou-me incisivamente: “Sérgio, você precisa com urgência escrever sobre aquela nossa turma que se reunia no Centro de Ciências”. Eu: “É pra já, Jorginho!”
E aqui estou a falar de um elenco heterogêneo de rapazes que se reuniam ocasionalmente no Centro de Ciências, Letras e Artes, na segunda metade da década de 1950. Parodiei neste título o amigo, escritor, jornalista Eustáquio Gomes, que em 1992 publicou seu saboroso “Os rapazes d’A Onda e outros rapazes”, sobre um grupo mais antigo, que literalmente fazia onda em Campinas entre 1921 e 1925 e literariamente editava A Onda faz um século.
Além do Jorge e deste escriba, quem mais ali se encontrava? Certamente serei traído pela memória, que o prolongado uso transformou numa vaga lembrança. Mas vá lá. Em primeiro lugar falo de Paulinho Del Grecco, magro, elegante em seu terno de casimira inglesa pied-de-poule, gravata italiana, sapato mocassim preto de pelica, meias pretas altas e caneladas, uma figura! Falando com energia, gastava sem parcimônia sua erudição literária e artística em geral, acumulada nos poucos vinte e seis, no máximo vinte e oito anos que tinha na ocasião. Do Del Grecco direi mais depois. Agora apenas lembro que foi ele a me fornecer, a mim mal saído das fraldas, com dez anos a menos que ele, uma lista completa da literatura que deveria ler, com Charles Morgan, Aldous Huxley, Gabriela Mistral, Hoelderlin, Eliot, Lawrence, Rilke – e por aí em fora. Seu nome: Paulo Marcos Nogueira Del Grecco. Ele acrescentava, entre Nogueira e Del Grecco, o nome Bentivoglio, alardeando ser descendente de um certo Marquês de Bentivoglio. Sempre chegava tendo ao lado a figura esguia, de moço bonito, um pouco esquivo, delicado na fala, Antônio Sodini, para nós o Toninho. Excelente pianista, também na faixa etária do Paulinho, Toninho nos deleitava com peças de Debussy que teclava, em audições exclusivas, no piano do Centro de Ciências. 
Estava sempre entre nós o José Alexandre dos Santos Ribeiro, um metro e noventa, avantajado na altura e no peso. Há pouco nos deixou. Por lá costumava estar a Maria Luísa Pinto de Moura, pessoa culta, afável, sempre disponível para orientar estudantes, era bibliotecária do Centro. Pois o Alexandre acabou casando com ela. Outra cuja presença se impunha era a dona Norma, secretária do Centro, Norma Piason. O presidente, antes da era do dedicado Marino Ziggiati e do atual Alcides Acosta, foi Herculano Gouvêa Neto, vereador, homem severo. Seu irmão mais novo, Clóvis Gouvêa, dado a filosofias, amiúde juntava-se aos rapazes.
Inesquecível também, e bastante frequente na turma dos rapazes, era o Chiquinho Abreu – Francisco de Campos Abreu Júnior. Advogado, poliglota, heraldista, conhecia em minúcias a vida da velha Campinas. Certa altura o Chiquinho prestou concurso, com sua rara bagagem passou e foi nomeado para a administração federal. Consta que um dia chegou ao palácio um holandês para falar com o general presidente. O visitante não sabia português e o presidente não sabia holandês. Foi um deus-nos-acuda palaciano. Quem salvou a pátria foi o Chiquinho, que fazia parte da assessoria direta do presidente e era fluente em holandês e outras dez línguas.
Às vezes saíamos o grupo todo a caminhar pelas ruas de Campinas. O Chico pontificava. “Estão vendo aquela casa? Ali o regente Feijó…”. “No florão daquela outra está o ano em que foi edificada, 1874; nela morava o barão…”. Nessas perambulações juntava-se a nós o comendador Theodoro de Souza Campos Junior, o Teodorinho, varapau com quase dois metros apesar do diminutivo, historiador e genealogista, fez parte da primeira e seleta turma que o professor Sampaio escolheu para a nossa campinense academia literária. Quando o Chico Abreu lançava uma farpa – “O Barão de Itapura andou…” – logo o Teodorinho, com sua voz fina e pausada de campineiro antigo, trocando quase de propósito os eles pelos erres, atalhava: “O senhor é muito mardoso, seu Francisquinho. O Barão de Itapura era um santo homem!”. Como diria o poeta, meninos eu vi.
Outro talento dessa rapaziada era o Heládio Brito, que a sampaial figura também levou para o primórdio da academia. Casado, Heládio fez vida como empresário, sem contudo abandonar as musas que sempre o acompanharam. Ao tempo em que se juntava aos rapazes do Centro, Heládio já poetava e já filosofava. Foi de sua boca que ouvi pela primeira vez o nome de Heidegger. Curioso o diálogo que se seguiu entre Brito e Del Grecco. “Heidegger conseguiu entrar na morada do ser e desvendar todos os seus mistérios”, disse Heládio. “Onde nasceu e onde morava o filósofo?”, perguntou, já sabendo a resposta, o empertigado Paulinho. “Na Alemanha, ora”, falou Brito. “Só podia ser, né? Dá pra ver o Heidegger nascido e morando em Caixa Prego?”, finalizava Del Grecco.
Havia outros, alguns fugazes como o cometa, alguns nem tanto. De repente me lembro do Mário Braga, circunspecto, sempre de terno, poucas falas, escritos vários. Virou magistrado, disse o direito com dignidade e competência. Já se foi. Também levado pela última das Parcas foi Stenio Pupo Nogueira. Raríssimas vezes ia ao Centro. Filósofo, economista, escritor, professor universitário recrutado por monsenhor Salim, foi também da sampaial academia. Os rapazes do Centro respeitavam e admiravam seu Stenio. Só de passagem: eram seus irmãos o combativo jornalista Bráulio Mendes Nogueira e o músico Paulinho Nogueira. E foi sua esposa Maria José Moraes Pupo Nogueira, autora do premiado Natal Solitário.
Era assim nesses tempos dos rapazes do Centro. Eles e suas artes. Do Paulinho Del Grecco falarei na próxima crônica, que ele merece uma especial.




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