Centenário de Jean Nicolini (1922-1991): O despertar de antigos novos sonhos

ORLANDO RODRIGUES FERREIRA

“Acreditamos que a obra realizada foi meritória e digna, justificando plenamente os anseios e o juramento (silencioso) feito há muito tempo […] O mérito de uma vida, cremos, está em acreditar em algo. E, como bem disse alguém, ‘uma vida bem vivida é a materialização de um sonho da juventude’”

Jean Nicolini (09/04/1922-23/07/1991)

Este excerto de autoria do astrônomo Jean Nicolini foi publicado em dezembro de 1975 no boletim Ouranos da União Brasileira de Astronomia (UBA), fundada em 1970 por Nicolini, Rubens de Azevedo (1921-2008), Rômulo Argentieri (1916-1995), Orlando Zambardino (1923-2008) – cunhado de Nicolini – e demais saudosos memoráveis da Astronomia.

Constantemente leio os escritos dele (diários, cartas, artigos, reportagens, livros publicados e inéditos, etc.), acervo da herança intelectual e da vida de quem soube dar forma aos seus sonhos e ideais. Filho dos franceses Nöel Nicolini (1889-1957) e Jeanne Cabrit Nicolini (1901-1994), ademais as irmãs Elisa Eva Nicolini Zambardino (1917-2019) e Andrea Nicolini Imay (1925-2017) e o irmão Pedro Jacques Nicolini, Jean Nicolini, cujo nome oficial em Certidão de Nascimento consta “João” Nicolini – pitoresca história à parte –, há 100 anos nasceu em São Paulo/SP aos 9 de abril de 1922 e faleceu num acidente automobilístico em 23 de julho de 1991. Do casamento (1956) com Áurea Belluco Nicolini (1934-2019) tiveram os filhos Ulisses Nicolini (1959-2006) e Leonardo Nicolini (1964).

Nicolini idealizou uma Astronomia toda própria e excelsamente humanista. Inicialmente inspirou-se pelas obras do astrônomo francês Nicolas Camille Flammarion (1842-1925), de quem sempre reverenciava a memória, por fim, com abnegada dedicação conseguiu unir seu Universo pessoal àquele dos astros, das estrelas e galáxias. Portanto, amalgamar o Universo astronômico ao humano foi o desafio que Nicolini enfrentou e à sua maneira concretizou demonstrando que somente compreenderemos o Universo  exterior  ao Ser  – seja Uni ou Multiverso – à medida que possamos entender o nosso próprio Universo– ou Multiverso – interior, ou seja, se ordenarmos e harmonizarmos um (microcosmo interior) consequentemente seremos conduzidos ao outro (macrocosmo exterior) como nas sábias palavras do filósofo e poeta francês Ambroise-Paul-Toussaint-Jules Valéry (1871-1945): “Nós contemos o Universo que nos contêm.”

            Em cada palavra, frase e entrelinha de Jean Nicolini sentia – e ainda sinto – a manifestação da sua inquietude e criatividade, mas que era ciente das limitações porque algumas vezes dele escutei a seguinte afirmação: “ – Os meus minutos não têm mais 60 segundos!”. Então, observava nele a angústia quanto à exiguidade da vida e o desejo de muito querer realizar no tempo iminente.

Naquele artigo no Ouranos de 1975, Nicolini externou que […] Em uma época em que só os valores materiais, em detrimento dos morais e espirituais, parecem contar, é sumamente difícil pensar na continuação de uma obra que sempre teve a norteá-lo o culto ao Saber. […]. Porquanto, a edificação da veneração à sabedoria para ele foi o Observatório do Capricórnio que fundou em 15 de outubro de 1948, primeiramente estabelecendo na casa de seu cunhado, Orlando Zambardino, depois transferindo à própria residência na Vila Olímpia, em São Paulo, posteriormente em 1970 instalando em Atibaia e depois por convênio prosseguindo na Estação Astronômica Municipal de Campinas, no Monte Urânia, Serra das Cabras, Distrito de Joaquim Egídio, erigida em 15 de janeiro de 1977 pelo idealista e realizador prefeito (1973-1977) Lauro Péricles Gonçalves, instituição que pela Lei Municipal 6.897/92 passou à denominação patronímica de Observatório Municipal de Campinas “Jean Nicolini”.

Peregrinando constantemente pelas sendas de Urânia, Nicolini sobremaneira se ocupava e preocupava com a sua obra maior por ser a concretização da vida que sabia efêmera perante a temporalidade porventura infinita do Universo, inclusive expressando que[…] Ignoramos qual vai ser o resultado dessa luta. O autor, que não se faz jovem (está há cerca de 30 anos com Urânia!), sabe que não é eterno – como as idéias e os ideais. De modo que se preocupa com o futuro daquilo que norteou sua vida e foi (e continua sendo) a sua razão de ser. […](Jean Nicolini, Ouranos, 1975).

Um dos maiores admiradores e discípulos de Jean Nicolini é o astrônomo Prof. Dr. Paulo Sérgio Bretones, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que em seu canal no YouTube (youtube.com/channel/UCP0Z43KohwL65TAYTUHcerQ) disponibilizou três vídeos com entrevistas que realizou com o mestre em 1988, 1989 e 7 de julho de 1991, 16 dias antes de falecer. Também comemorando o centésimo natalício, o Museu Aberto de Astronomia-MAAS (museuabertodeastronomia.com.br), por seu proprietário José Carlos Silva Júnior, em 8 de abril inaugurou o Pavilhão “Jean Nicolini” com a cúpula astronômica construída em 1961 por Nicolini e Orlando Zambardino, local com telescópio e memorial à personalidade. São vídeos históricos e visita que recomendo para conhecerem o pensamento, vida e obra de um dos expoentes da Astronomia brasileira e reconhecido internacionalmente, essencialmente as ininterruptas observações e registros solares que produziu de 1º de janeiro de 1956 até 22 de abril de 1991, véspera de seu falecimento.

O sofrimento pela ausência de quase 31 anos do querido amigo e mentor aparentemente passou, resguardo a memória dele na consciência e preservo sua história no relicário dos sentimentos. Poder evocar sozinho e silente, por decisão pessoal, o seu centenário de nascimento proporciona incomensurável felicidade, algo impossível de explicar e compartilhar. Por isso, neste 9 de abril de 2022, pela centúria do saudoso astrônomo singelamente celebro com gratidão quem me ensinou ir além das possibilidades e que deixou legados para serem sonhados, idealizados e materializados pelas pósteras gerações que oportunamente despertarão para antigos novos sonhos. Principalmente porque, seguindo na flecha do inexorável tempo, agora são os meus minutos que não têm mais 60 segundos…

Ad astra per Aspera

Orlando Rodrigues Ferreira

Conselheiro Fiscal do CCLA, professor, astrônomo, licenciado em Filosofia, pós–graduado em Astronomia, Mestre e Doutor em Ensino de Ciências e Matemática; MTB 86.736/SP



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O CCLA - Centro de Ciências, Letras e Artes é uma entidade cultural particular e sem fins lucrativos fundada em 31 de outubro de 1901, na cidade de Campinas/SP, por um grupo de cientistas, artistas e intelectuais que decidiram criar uma instituição em que se pudessem reunir para o estudo e a produção de atividades científicas e artísticas.


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