Artista plástica Fúlvia Gonçalves está expondo no CCLA

As obras inspiradas nos textos do poeta francês Stéphane Mallarmé estarão expostas no Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) até 27 de janeiro

Cibele Vieira (Caderno C – Correio Popular – 08/01/2022)

A sutileza dos traços
Fúlvia Gonçalves é pintora, desenhista, gravadora e professora

Sentir e deixar fluir. Foi assim que a artista plástica Fúlvia Gonçalves, de 84 anos, criou os 13 quadros que compõem a exposição: “Mallarmé – A Transfiguração das Palavras”. Inspirada nos textos do poeta francês Stéphane Mallarmé, a coleção foi cedida para o acervo do Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) de Campinas, e pode ser vista a partir desta segunda-feira, 10, na sede da entidade, no Centro da cidade, onde permanece exposta até o final de janeiro. A visitação é gratuita.

A artista conheceu os poemas de Mallarmé pelas traduções de Joaquim Brasil Fontes, seu orientador na tese de doutorado, que fez na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1988. “Esse poeta tem textos herméticos [fechados e de difícil entendimento] e fui desafiada a ilustrá-los”, conta. “Mas é questão de sentir, não de entender, e fui me deixando levar. Senti um prazer imenso, fui lançando as cores no papel e foi saindo”, explica.

As ilustrações impressionistas foram criadas com técnica mista (aquarela ecoline e giz de cera) sobre papel archés, na dimensão de 1m X 0,60cm no estilo impressionista. Elas foram produzidas há mais de cinco anos e Fúlvia decidiu doar para o acervo do CCLA, onde estão expostas em placas de acrílico. A mostra foi inaugurada em outubro e permaneceu aberta até meados de dezembro, reabrindo agora até o final do mês, quando o local fecha para reformas.

Carreira intensa

Fúlvia Gonçalves é pintora, desenhista, gravadora e professora. Fez comunicação visual na Escola de Artes Plásticas, em Ribeirão Preto, na década de 1960. Atuou como professora da Universidade de Ribeirão Preto, trabalhou com cinema de animação e participou com seus trabalhos de galerias, salões e museus no Brasil e também no exterior.

Entre os anos 1976 e 1992, participou da criação e implantação dos cursos de graduação e pós-graduação em Artes Plásticas da Unicamp, onde ocupou o cargo de chefe do Departamento de Artes Plásticas do Instituto de Artes.

Nascida em Pedreira (SP), em 1937, filha de uma modista e um funcionário da Companhia Mogiana, passou por várias cidades até chegar a Campinas, onde se dedicou ao trabalho entre o ateliê e a docência na universidade. “Tive a imensa alegria de receber o professor Paulo Renato Costa Souza [ex-reitor da Unicamp, já falecido] em meu ateliê. Eu estava em um período de licença e ele veio me trazer uma carta. Tratava-se da aquisição de uma obra de minha autoria por Michel Lacluite, diretor do Museu do Louvre, de Paris, em 06/11/1989”, relata.

Fazem parte do currículo de Fúlvia os estágios que fez no ateliê do artista Wesley Duke Lee, em São Paulo, e na Academia de Brera, em Milão, na Itália.

Além do trabalho artístico, ela desenvolve uma atividade pedagógica com crianças de nove e dez anos, na área de artes visuais, no Instituto Popular Humberto de Campos, no Centro.

Aposentada, mas na ativa

Aposentada da Unicamp desde 1989, Fúlvia segue trabalhando em seu próprio ateliê, montado em um dos quartos do apartamento onde reside em Campinas, juntamente com sua irmã, Gláucia. Tem, ainda, um irmão: Lauro Péricles Gonçalves, que foi prefeito de Campinas, nos anos de 1970.

Os traços começaram a aparecer nas folhas de papel quando ela tinha apenas quatro anos de idade. Mais ou menos nessa época, fez sua primeira instalação em Poços de Caldas (MG). A “brincadeira” ficou séria e virou profissão.

Na Unicamp, onde chegou em 1976 a convite do professor Rogério Cesar de Cerqueira Leite, durante a gestão do reitor Zeferino Vaz, ela trabalhou juntamente com outras artistas como Suely Pinotti, Berenice

Toledo e Marco do Valle. Nesse período, seu currículo conta com diversas exposições internacionais, projetos de extensão, coordenação de curso, orientação de teses, montagem de murais e ilustrações de livros.

Parte da coleção de Fúlvia está no Centro de Memória da Unicamp (CMU). “São desenhos originais, feitos com bico de pena para o livro Testemunhos do Passado Campineiro, do jornalista Benedito Barbosa Pupo”, explica.

Agora, quem quiser apreciar as obras da artista, não deve perder a oportunidade de visitar o CCLA. Por conta da pandemia, o acesso está restrito a três dias por semana (terças, quartas e quintas-feiras, das 9h30 às 16h30) (Reportagem de Cibele Vieira)