Sob o signo da necessidade

Roberto Goto

“Encarregado da organização do abastecimento, despachou legados e amigos para diversos pontos, e ele próprio se fez à vela para a Sicília, Sardenha, Líbia, onde determinou estocagens de cereais. A ponto de reembarcar, ventos buliçosos abateram-se sobre as ondas e os pilotos tremeram; Pompeu foi o primeiro a subir para bordo, mandou levantar ferros e bradou: ‘Navegar é preciso; viver não é preciso’.” Assim Plutarco[1] (ca.46-ca.120) narra o episódio em que Pompeu (106-48 a.C.) forja as frases cuja forma latina é “Navigare necesse (est), vivere non necesse, Navegar é necessário; viver, não”, como informa Paulo Rónai[2], acrescentando: “Citadas em relação a um dever imperioso, mais importante do que a própria vida”.   

            Quando Fernando Pessoa (1888-1935) as retoma, num texto intitulado “Palavras de Pórtico”, interpreta-as e unifica-as, justamente, sob o signo da necessidade: “Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: ‘Navegar é preciso; viver não é preciso.’/ Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar./ Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo./ Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha./ Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade./ É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.”[3]

            Os vinte séculos que separam o político romano do poeta português não apagaram, portanto, o sinete da necessidade: em ambos os casos, o “é preciso” corresponde, precisamente, ao “é necessário”, significando sempre um imperativo. A diferença incide sobre os verbos “navegar” e “viver”. No texto de Plutarco, eles se impõem por seus sentidos literais e práticos: Pompeu comanda a navegação comercial e, conta o historiador grego, “Graças a seu empenho e audácia, secundados pela fortuna, atulhou os mercados de trigo e o mar de navios. A abundância de provisões foi suficiente até mesmo para os povos de fora, qual fonte cujas águas inestancáveis saciam o mundo inteiro.”[4] No caso de Pessoa, adquirem conotação metafórica: viver é “gozar a vida”; navegar é “criar”.

A relação entre os dois termos permanece, basicamente, a mesma: trata-se de escolher entre o navegar e o viver. Mediada e imposta pela necessidade, a escolha parece não existir. No entanto, a primeira não elimina a segunda. O que faz é fundar e afirmar um valor heterodoxo e paradoxal: na contramão da opinião comum e corrente – que toma como óbvio e natural o viver para, até tautologicamente, “aproveitar a vida” –, sustenta que o viver não é necessário. Quanto a isso, Pompeu é extremo e Pessoa radical.

            A ideia de necessidade, em Pompeu, põe momentaneamente em jogo o viver no sentido de manter-se vivo – ou seja, de não morrer. Para ele e os marinheiros sob seu comando, ela envolve o risco de perderem suas vidas, ainda que em benefício de vidas alheias (é em sua busca de mantimentos e víveres, essenciais para o sustento e a nutrição dos povos, que os navios enfrentam o mar encapelado).

Em Fernando Pessoa, ela dispõe um programa para toda a existência, espraiada por todo seu horizonte. O que está em questão, em seu caso, não é o viver como subsistir (pode-se mesmo supor que ele deva ser assegurado, no que concerne à satisfação das necessidades básicas), mas o que costuma – ou costumava, até há pouco – responder pelo nome de “curtição”. O poeta para o qual viver não é preciso prontifica-se a abrir mão do seu gozo e mesmo a sacrificá-lo em favor da criação artística – não por um momento, como o navegante que enfrenta o transe de um mar tempestuoso, mas por toda a existência, dia após dia, contínua e persistentemente.

            Em ambos os casos, se o navegar, em última análise, não elimina o subsistir, é na mesma medida em que a ele se oferece como valor. E, como todo valor, esse também se dispõe no plano da liberdade – para ser escolhido ou recusado. A necessidade com a qual ele é gravado não exclui a escolha, porque ela é passível de ser rejeitada in limine, podendo-se mesmo dizer que, se é afirmada, é porque tudo conspira contra ela: no mundo dos valores mais frequentemente cultivados e cultuados pela maioria, essa necessidade é questionada e relativizada, confundida com obrigação, interpelada, aferida e cobrada em termos de relação custo/benefício (“a troco de quê o navegar é necessário?, qual é o proveito, o lucro dessa necessidade?”). Se é certo que nenhuma necessidade, em si mesma, precisa ser justificada (pelo contrário, é ela que pode justificar aquilo sobre o qual recai), ocorre que essa necessidade só existe se é escolhida, valorada.

            Somente quando é escolhida e assumida como valor, essa necessidade dispensa justificativas: uma vez afirmado seu caráter de necessidade, o navegar deixa o mundo da contingência e enfuna-se com os ares de um mar absoluto, em que o norte e o sentido do navegar são o próprio navegar. Indiferente tanto à bonança quanto à procela, ele mantém-se e prossegue, independentemente de ganhos e perdas, sucessos e fracassos, bastando-se a si mesmo. Ao tomar por divisa o “navegar é preciso”, o poeta erige a criação artística como valor absoluto, prescindindo de qualquer outro parâmetro ou critério de valoração que não o próprio trabalho criativo: cria incondicionalmente, mesmo em meio a dúvidas e incertezas, mesmo sem a esperança de compensações e recompensas (de remuneração, celebridade, respeito, reconhecimento). A necessidade de seu navegar é radical nesse sentido de se arraigar em seu cotidiano, de ancorar em sua vontade, de fazer coincidir com seu próprio ser o trabalho de criar – o fogo que ele consagra à humanidade e no qual consome seu corpo e sua vida.      

A frase é gloriosa, escreve Fernando Pessoa, e é de se presumir que o faz pensando naqueles para quem “tudo vale a pena”, em cujas almas ela deve calar fundo, ou encontrar seu devido lastro: nelas é que a glória mais íntima, mais consistente e substancial advém desse fogo que arde não por esse ou aquele capricho, por essa ou aquela paixão, mas unicamente porque tem de arder – por necessidade. Tais almas e tal necessidade pertencem-se mutuamente: aquelas não são pequenas justamente na medida em que são a consciência e a escolha dessa necessidade.

Roberto Goto é professor e escritor, tendo escrito, entre outras obras, De um outono verão adentro (novela), Lettera e Neon (romance) e Eustáquio & Joaquim (ensaio).


Notas bibliográficas:

[1] Plutarco, Vidas Paralelas (Pompeu, 50). Trad. Gilson César Cardoso. São Paulo: Ed. Paumape, 1992, v. IV, p. 98. Na obra, a biografia do romano Pompeu é posta em comparação com a do grego Agesilau.

[2] Rónai, Paulo. Não perca seu Latim. 8ª impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, p. 115-116.

[3] Pessoa, Fernando. Seleção Poética. Rio de Janeiro: Cia. José Aguilar Ed., 1971, p. 9.

[4] Plutarco, op. cit., p. 98-99.