Emoção na abertura da exposição “65 Anos de Cinema de Arte em Campinas”

Com muita emoção, foi inaugurada no dia 15 de julho a Exposição “65 anos de Cinema de Arte em Campinas”. Muitos diretores do Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA) e cinéfilos estavam presentes na cerimônia, que não deixou de ser um tributo ao presidente da instituição, Marino Ziggiatti, um dos responsáveis pela introdução do cinema de arte na cidade. Abaixo, um texto do curador da exposição, o jornalista João Antônio Buhrer de Almeida, sobre o seu trabalho em montar o projeto.

 

Muitos cinéfilos e personalidades do mundo cultural de Campinas na abertura da exposição (Foto José Pedro Martins)

Muitos cinéfilos e personalidades do mundo cultural de Campinas na abertura da exposição (Foto José Pedro Martins)

 

História de uma paixão pelo cinema e pela cultura

Por João Antônio Buhrer de Almeida

 

Para contar a história do Cinema de Arte em Campinas esta exposição teve que necessariamente falar de Marino Ziggiatti. Por seu intermédio, e através de seu entusiasmo, pôde se exibir em Campinas muitos filmes de arte que dificilmente seriam projetados na rede comercial de cinemas. Com este senhor, hoje quase nonagenário, praticamente definiu-se na cidade o conceito de cineclube. Estou falando da data de 1950, quando Marino voltou a Campinas e começou a se envolver com cineclubismo. Participou ativamente das organizações que serão tratadas nessa exposição: o Clube de Cinema da Associação Campinense de Imprensa,o Cineclube da Sociedade Reunidas e a criação do Departamento de Cinema do Centro de Ciências Letras e Artes.

 

O jornalista João Antônio Buhrer de Almeida, curador da exposição

O jornalista João Antônio Buhrer de Almeida, curador da exposição

 

Marino Ziggiati nasceu em 1926 e fez seus primeiros estudos em Campinas. Em 1942 mudou-se para São Paulo para o estudo superior. Em 1945 iniciou seu curso de engenharia, mas paralelamente descobriu que também se interessava por arte. Começou a frequentar as sessões de cinema do Museu de Arte de São Paulo, na rua Sete de Abril, que no futuro seria mais conhecido como MASP. Lá conviveu com críticos e intelectuais que estavam começando a valorizar o cinema como obra de arte no Brasil. Ali se formou um núcleo que depois iria fundar em 1952 a Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo, que mudaria de nome para Cinemateca Brasileira em 1955. Convivendo com Paulo Emilio Salles Gomes e intelectuais do cinema, foi fisgado definitivamente para o dito Cinema de Arte. Quando terminou a engenharia e voltou para Campinas em 1950 concluiu que não poderia atuar apenas como engenheiro, e ocupou-se também da arquitetura e do cineclubismo. Segundo ele a arquitetura era e é uma profissão que tem relações mais diretas com a arte. O interesse pelo cinema continuou e só fez aumentar ao longo dos anos seguintes.

 

Luiz Carlos Ribeiro Borges faz a abertura oficial da exposição (Foto José Pedro Martins)

Luiz Carlos Ribeiro Borges faz a abertura oficial da exposição (Foto José Pedro Martins)

 

Em 1950 se aproximou de Bráulio Mendes Nogueira e a ele sugeriu exibirem em Campinas a obra João da Mata(1923), filme antológico, de Amilar Alves, que estava esquecido. Era um clássico do cinema mudo; do chamado Ciclo Campineiro deCinema. Bráulio criou então o cineclube Clube de Cinema da ACI, ligado à Associação Campinense de Imprensa. Um dos produtores de João da Mata tinha sido José Ziggiatti, pai de Marino, e as latas do filme estavam esquecidas embaixo de uma escada de sua casa. A fita foi passada com enorme sucesso em Campinas, no Teatro Municipal, neste mesmo ano de 1950. Marino continuou colaborando com este cineclube, organizou a exibição de mais dois filmes, portanto esteve envolvido profundamente com este pioneiro cineclube, extinto ainda naquele ano de 1950, por Bráulio. Assim o Cinema de Arte começou a dar seus primeiros passos na cidade,

No ano seguinte Marino se filiou à Sociedade Reunidas, como engenheiro arquiteto. Era uma associação de classes, congregando advogados, médicos e engenheiros. Ele descobriu numa das salas da entidade um projetor de 16 mm, que não estava sendo utilizado. Criou ali naquele momento uma espécie de cineclube informal, que funcionou ao longo de 1952, mas que não chegou a ter um nome propriamente dito. Passou ali dezenas de filmes, da maior relevância cultural.( Há nesta exposição um documento com a relação dos filmes que foram exibidos nesta associação.)

 

Cartaz do ciclo que marcou os dez anos de cinema de arte, promovido pelo CCLA em 1965 (Foto José Pedro Martins)

Cartaz do ciclo que marcou os dez anos de cinema de arte, promovido pelo CCLA em 1965 (Foto José Pedro Martins)

 

Em 1952 já o vemos atuando no CCLA. Muitos dos filiados da Sociedade Reunidas também eram ligados a esta entidade, e assim surgiu o convite pra que ele fosse organizar o cineclube desta centenária instituição de Campinas. Quando chegou ao CCLA Marino já começou a organizar o que seria o futuro Departamento de Cinema do CCLA. Retomou contato com a Cinemateca, cujos membros já conhecia de São Paulo, como também se aproximou da rede de cineclubes que já existia no estado e por todo o país. Fez amizade com Carlos Vieira, que foi um dos organizadores desta rede de cineclubes, até que culminou em setembro de 1955 com a criação efetiva do Departamento de Cinema do CCLA.

Esse departamento de cinema funcionou efetivamente como um cineclube, produziu cursos sobre cinema, ciclos, festivais e exibição de filmes. Seu primeiro ciclo foi 10 Anos de Cinema de Arte, em outubro de 1955. A partir daí grandes nomes como Carlos Vieira, Gustavo Dahl, Jean Claude Bernadet, Rudá Andrade, Paulo Emilio Salles Gomes passaram a vir a Campinas proferir palestras e debates sobre filmes. Foram exibidas ciclo de filmes importantes, como os de Fellini, Albert Lamorisse, Cinema Infantil, Revisão do Cinema Italiano e Cinema Francês. A ligação desse Departamento de Cinema com a Cinemateca e os cineclubes aumentou, permitindo assim que a sociedade campinense pudesse ver filmes que muito dificilmente seriam exibidos nos cinemas locais. Era um tempo em que só podíamos ver filmes nos cinemas, não havia DVD, fita de vídeo, muito menos o Youtube. Um cineclube passando filmes de arte era, portanto, um oásis.

 

Vários dos documentos reunidos na exposição

Vários dos documentos reunidos na exposição

 

Nos anos 1960 Marino e o Departamento de Cinema continuam a todo vapor, produzindo ciclos e mais ciclos, exibiu-se, por exemplo, em 1967 o filme Cidadão Kane, abrindo uma série chamada de Cinema de Arte. Na época o filme de Welles era pouco conhecido, poucos se aventuravam a exibi-lo nos cinemas comerciais. Em 1965 surgiu o Cineclube Universitário de Campinas, que também se utilizou das dependências do CCLA, fiel parceiro destes jovens cineclubistas.Os integrantes deste grupo foram Rolf Luna Fonseca, Luís Carlos Borges e Days Fonseca. Permaneceram ligados ao CCLA até o encerramento daquele Cineclube, em 1974.

Já nos anos 1970 Marino sentiu que os ventos do cinema de arte estavam soprando para o Cinema Super8, que era o formato comum na época. Nesta bitola de 8 mm estava se produzindo cinema de arte e ou cinema experimental. Através do apoio dos mesmos amigos da Cinemateca, Maurice Capoville, Jean Claude Bernadet e Rudá Andrade, Marino criou os Festivais Nacionais de Super 8 da cidade, que duraram de 1974 a 1983. Eventos que alcançaram repercussão nacional, os olhos dos jovens cineastas naquele período estavam todos voltados para a cidade. Paralelamente a isto não descuidava do cineclubismo e da exibição de filmes longas de arte no CCLA. Toda esta relação do Departamento de Cinema do CCLA com cinema de arte culminou em 1975 com a 9ª Jornada Nacional do Cineclubismo, que trouxe para a cidade os cineclubistas de todo país. Um marco na história cultural da cidade.

 

Exposição apresenta informações sobre outros cineclubes históricos no Brasil (Foto José Pedro Martins)

Exposição apresenta informações sobre outros cineclubes históricos no Brasil (Foto José Pedro Martins)

 

Dos anos 1980/1990 aos dias que seguem, o Departamento de Cinema continuou atuando, tendo realizado ciclos importantes, como do cinema alemão, iraniano, italiano e ficção científica. Hoje, Marino tem o sonho de produzir um festival de cinema digital, que parece ser a mídia de nossos tempos, como nos anos 1970 tinha sido o Super 8.

Esta exposição, sob minha curadoria, foi feita toda com depoimentos colhidos de Marino Ziggiatti, que me procurou com muita urgência propondo organizar tal evento. Usei seu arquivo pessoal como também do CCLA. Minha ideia básica foi estabelecer uma linha do tempo, pontuando-a com documentos que ilustrassem as passagens mais relevantes do cineclubismo em Campinas. Desconheço, e não foi objeto da mostra, a existência de outros cineclubes que possam ter existido em Campinas, antes do período que abordo. Coloquei como ponto inicial o Clube de Cinema da ACI, de 1950. Depois o cineclube informal da Sociedade Reunidas,1951/1952. Em seguida o cineclube Departamento de Cinema do CCLA, que surgiu oficialmente em 1955, embora já existisse desde 1952. A história deste Cineclube vem até nossos dias. Evidentemente que surgiram nos anos 1960/1970 e até os dias de hoje outros cineclubes pela cidade, mas não são retratados nesta exposição. É uma outra história, que precisa também ser contada. A exposição pretendeu apenas fazer apontamentos sobre o tema. Tomara que outros pesquisadores debrucem-se sobre o assunto e o estudem com mais profundidade. O tempo de pesquisa desta mostra, entre o pedido de Marino e a abertura efetiva, foi de exatos dois meses redondos.

Folha original, com lista de filmes de arte exibidos na década de 1950 em Campinas (Foto José Pedro Martins)

Folha original, com lista de filmes de arte exibidos na década de 1950 em Campinas (Foto José Pedro Martins)



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O CCLA - Centro de Ciências, Letras e Artes é uma entidade cultural particular e sem fins lucrativos fundada em 31 de outubro de 1901, na cidade de Campinas/SP, por um grupo de cientistas, artistas e intelectuais que decidiram criar uma instituição em que se pudessem reunir para o estudo e a produção de atividades científicas e artísticas.