A história de um piano

Por Gustavo Mazzola – Quem sobe ao segundo andar do prédio do Centro de Ciências, Letras e Artes, de Campinas, na rua Bernardino de Campos, 989, certamente acabará vendo, em lugar destacado do seu museu Carlos Gomes, um antigo piano de cauda vienense da marca Heitzmann & Sohn K. K. Hul. Talvez nem imagine que está diante de uma raridade… com tanta história: o instrumento pertenceu ao próprio Carlos Gomes e está ali depois de percorrer metade do Brasil.

Foto: Martinho Caires

Foto: Martinho Caires

Vamos voltar a 1926, quando começaram os registros dessa grande viagem: segundo o que encontrou o pesquisador João Antônio Buhrer de Almeida na revista carioca Para Todos de 31 de julho daquele ano, já fazia um bom tempo em que o compositor campineiro, cheio de glórias, mas doente e às portas da morte, via chegar sua velhice no Pará, sem recursos e coberto de dívidas. Assim, aos poucos se desfazia de tudo que possuía, propriedades, terras, objetos de arte, joias. Poupava, no entanto, o que tinha para ele um valor de estimação especial, o seu piano.

Por uma graça dos céus, acabou caindo na simpatia do governador do Estado, Dr. Lauro Sodré, que se atentou para o martírio que fazia Carlos Gomes definhar, dia a dia: num gesto humanitário, pleiteou e obteve na Câmara paraense autorização para que o grande compositor passasse a ser considerado como Enfermo Oficial do Estado, o que deu possibilidade de, após a morte, seu corpo seguir dignamente para o sul do país.

Mas o piano ficava em Belém. Dr. Sodré cuidou de adquiri-lo e bem instalá-lo no Theatro da Paz, na capital paraense. Nos anos seguintes, por inoperância de administrações que o sucederam, a peça preciosa acabou indo para uma das águas-furtadas do teatro, permanecendo por um bom tempo guardada e esquecida.

Como expressa o texto do cronista da Para Todos, “o destino arma das suas”: durante uma temporada artística no Pará, o barítono Corbiniano Villaça acabou descobrindo o piano no sótão do teatro. De imediato, procurou o governador que, por sorte, era de novo Dr. Lauro Sodré – verdadeiro patrono o artista -, relata-lhe o fato e pede providências. A maior autoridade do Estado, então, usando de suas prerrogativas de poder, faz doação da peça artística para a Associação de Imprensa do Pará, naquela época próspera e muito prestigiada.

Passam-se os anos e Dr. Sodré, já agora no Rio de Janeiro como senador da República, decide apelar para que a Associação de Imprensa do Pará fizesse, por sua vez, uma nova doação do piano, agora para o recém criado Museu Nacional.

Nesse ponto entra na história o Centro de Ciências, Letras e Artes, de Campinas: sua diretoria solicita ao governo do Pará e, no mesmo ano da publicação da tal revista, consegue a guarda definitiva do piano (Lei do Governo do Estado do Pará número 2.556, de 12.11.1926).

Isso tudo, apesar de severas críticas do cronista, que se nomeava simplesmente como T.G. Entendia ele ser no Rio o melhor depositário da relíquia, expressando-se de maneira até um tanto sarcástica no seu texto: “O direito de pedir deve-se opor ao direito de negar. O piano de Carlos Gomes não é um instrumento que possa pertencer a uma associação particular, não pode estar andando de Herodes a Pilatos, como, uma res nullius, sem valor. O Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas pode desaparecer de um momento para outro”.

Não foi o que aconteceu, felizmente: a entidade de Campinas prosperou nas décadas seguintes e já atravessa onze anos após o seu primeiro centenário. Não “desapareceu” como o cronista da revista Para Todos acreditava.

O piano continua lá, no seu lugar mais acertado e verdadeiro: preservado e admirado como peça principal do museu Carlos Gomes, junto à sua harpa, suas baquetas, suas 3.000 partituras originais, jornais, fotos da época e tudo o mais.

Pena que não tenhamos mais o “Tonico de Campinas” para tocá-lo, como ele tanto gostava de fazer nos seus tempos no Pará.

Gustavo Mazzola – mazzola@sigmanet.com.br



O CCLA - Centro de Ciências, Letras e Artes é uma entidade cultural particular e sem fins lucrativos fundada em 31 de outubro de 1901, na cidade de Campinas/SP, por um grupo de cientistas, artistas e intelectuais que decidiram criar uma instituição em que se pudessem reunir para o estudo e a produção de atividades científicas e artísticas.